Pediram explicações a Deus e Deus decidiu
falar.
E Deus fez "SSSHHH!".
E todas as turbinas pararam.
E os Tornos.
E as grandes prensas e os geradores.
E o rumor das cataratas.
E o mar também silenciou.
E ouviu o Senhor que era bom.
E de novo fez "SSSHHH!".
E os ventos não assoviaram mais.
E as grandes manadas, temerosas de Deus,
Interrromperam seu tropel.
E os elefantes pisaram nas pontas dos pés.
E as baleias se aquietaram.
E as locomotivas.
E os tenores e as sopranos.
E tudo que no mundo é estriduloso silenciou.
E os pistões.
E as sinfônicas.
E os conjuntos de roque
leves e pesados.
E as buzinas.
E as descargas.
E os pregões da Bolsa.
E ouviu o Senhorque era bom.
Mas ainda não era o bastante.
E de novo fez "SSSHHH!".
e também os córregos silenciaram.
E os camelôs.
E os passarinhos.
E os homens.
E, a contragosto, as mulheres.
As fontes.
Os talheres nos pratos.
As xícaras nos pires.
As barrigas.
Os bebês.
E houve o silêncio completo.
Nem um murmúrio.
Nem um "Ai".
Nem um espirro.
Nem uma risadinha.
E ouviu o Senhor que era perfeito.
E, no grnade silêncio, Deus limpou a garganta
para explicar os seus desígnios. E por que
havia fome, e guerras, e terremotos, e enchentes,
e quem não tinha que morrer morria.
E preparou-se para falar.
E...
"Cric".
Um grilo.
"SSSHHH!", rugiu o Senhor.
"Cric", fez o grilo.
E "cric" de novo.
( Querendo dizer, certamente,
que a vida continua,
que não há tempo
para ficar aí remoendo e rerremoendo as coisa.
Ou, então,
simplesmente, "cric".)
E ninguém encontrava o Grilo.
E os bebês começaram a chorar
E as mães a ralhar.
E os passarinhos a cantar
E os camelôs.
E as buzinas.
Descargas.
Guitarras elétricas.
Sinfônicas.
Elefantes.
Cataratas.
Geradores.
Prensas Hidráulicas.
Turbinas a jato.
Vulcões.
Trovões.
E por cima da cacofonia do mundo Deus fez
para seus inquisitores um sinal com mímica
que queria dizer: " Agora não dá, me procurem
no fim que eu explico tudo!".
VERISSIMO, Luis Fernando. Poesia numa hora dessas?! Ed.Objetiva. Rio De Janeiro. 2002.
Nenhum comentário:
Postar um comentário